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Onde está a confiança das pessoas?

Esta semana aconteceu um fato que me fez refletir muito sobre o tema da confiança e do compromisso da palavra.

Segunda feira, início de mais uma semana de labuta. Ao entrar no carro, constato que era necessário parar no posto para abastecer o carro.

Sem problemas. Afinal, estou adiantado. Cinco minutos para abastecer o carro não seria problema.

Ledo engano…

Com o tanque cheio, pronto para realizar o pagamento, constato que estou sem minha carteira. Sem dinheiro, sem cartão de credito, sem nada para realizar o pagamento, ficamos em um dilema.

Em uma sociedade que pauta pela confiança entre os indivíduos, tudo seria muito simples. Eu iria até em casa, pegaria minha carteira, retornaria para o posto, finalizava o pagamento e fim de história.

Aliás, foi exatamente isto o que eu propus ao frentista.

– De forma nenhuma! O Sr não pode sair sem pagar.

Apesar das súplicas e do pedido de confiança, nada fez o frentista mudar de ideia. Eu sabia da minha honestidade e meu compromisso com a palavra, já ele não o sabia.

– Preciso do seu celular como garantia – disse o frentista.

– Tudo bem. Vou deixar – eu disse a contragosto. No entanto, também preciso uma declaração por escrito que você está ficando com meu celular.

Já que a toda relação interpessoal envolve a confiança mutua, se ele não confiou em mim, porque eu iria confiar nele. Ele poderia muito bem negar que eu havia deixado meu celular com eles.

E assim se sucedeu. Eu fui liberado para ir até em casa pegar minha carteira e eles ficaram com meu celular.

Após um pouco de congestionamento e uns bons vinte minutos, retornei ao posto para finalizar toda a transação e reaver meu celular.

A história havia finalizado,  mas a inquietação e a reflexão não.

Aqui no Brasil, partimos do pressuposto de que “todos são ladrões e malandros até que se prove o contrário”.

Parei para refletir o porquê deste comportamento.

A conclusão que chego é que o comportamento não poderia ser outro.

Nós somos bombardeados diariamente pelos jornais televisivos por uma infinidade de noticias sobre golpes, corrupção e falcatruas. Comportamentos estes, exercidos indiscriminadamente por pessoas de todas as classes sociais e profissionais, tais como políticos, advogados, funcionários públicos, médicos, entre outros.

As pessoas, de uma forma geral, são educadas a sempre querer levar vantagem. Motoristas que avançam pelo acostamento para fugir de um congestionamento. Pessoas que passam “óleo de peroba” na cara e tentam “furar a fila”. Cambistas que inflacionam os shows mais concorridos.

Assim sendo, como esperar um comportamento padrão de confiança mútua? O mais esperado (e o realmente ocorre) é esperar sempre o pior das pessoas na tentativa de evitar uma decepção ou um prejuízo. Nós adotamos uma postura defensiva para evitar que sejamos enganados. Evitar aquela sensação horrível de “ter sido passado para trás”.

Em um exercício de empatia, vale a pena, me imaginar na posição do frentista. Que atitude eu tomaria no lugar dele? Gostaria de dizer, sem hesitação, que minha atitude seria diferente, de confiança no outro. No entanto, não posso afirmar isto.

No passado já fui vítima por confiar nas pessoas. Brevemente vou descrever o ocorrido.

Durante as compras de supermercado, fui abordado por duas crianças de baixa renda pedindo para comprar pacotes de fralda para seu irmão recém-nascido. Sensibilizado pelo pedido, não hesitei em ajudar aquela família, afinal não estava dando dinheiro que poderia estar sendo usado para consumo de drogas.  Ainda com o coração aquecido por aquele ato espontâneo de generosidade, senti esta emoção se transformar em uma fração de segundos, em um sentimento oposto de revolta. Os meninos estavam trocando o pacote de fraldas por dinheiro na caixa do supermercado! Confiança traída!

É muito triste constatar esta realidade. Pessoas bem intencionadas e com fé no próximo podem suportar quantas decepções?

Quantas vezes aquele frentista ficou no prejuízo por ter confiado no outro?

Tem como julgar seu comportamento?

Fico imaginando um mundo onde a confiança no outro fosse reestabelecida. Onde todos seriam considerados justos e honestos até que se prove o contrário. O inverso do que ocorre hoje.

Será que ainda estarei vivo para viver uma realidade como esta? Bem que eu gostaria…

Referência:

Foto: Pixabay / Sweetlouise

Tags : comportamentoreflexão
Rogerio Chinen

O Autor Rogerio Chinen

médico formado na UNIFESP
aficcionado por cinema e tecnologia
interessado em questões filosóficas e sobre o conhecimento humano
idealizador, criador e webmaster do site Espiral de Valor

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