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Participante do MasterChef rebate críticas de forma brilhante e nos faz refletir.

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Participante do MasterChef rebate críticas de forma brilhante e nos faz refletir.

A participante (recém eliminada) do MasterChef Brasil, Caroline Martins responde nas redes
sociais porque repete sempre as mesmas roupas.
Caroline Martins , 31 a nos, é PhD em Física pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA),
tem pós-doutorado na Universidade do Texas e atualmente é pesquisadora de energia nuclear
do ITA.
Além deste incrível currículo técnico, tem o sonho de abrir um bistrô, e foi este sonho que a
fez se inscrever no MasterChef Brasil.
Além dos seus dons culinários, sua participação no programa foi marcada por seus comentários sempre bem humorados.
Outra característica que chamou a atenção do público foi o fato de ela sempre usar mesmas
roupas nos programas.
Após receber várias menções no Twitter sobre isto ela resolveu se pronunciar nas redes sociais
e explicar a filosofia por trás disso: o minimalismo.
Confira a transcrição da sua publicação no Facebook na íntegra:
Jovens, estou recebendo várias menções no Twitter sobre sempre usar as mesmas roupas, e acho legal compartilhar com vocês a ideologia por trás disso, pois este estilo de vida vai muito mais além das minhas vestimentas.
Com uma infância/adolescência um tanto quanto clichê, a TV sempre teve grande influência na minha formação sociológica. Cresci acreditando que a sociedade só me aceitaria se eu estivesse dentro do “peso ideal”, se eu estivesse com os cabelos lindos e sedosos, e também acreditava que só seria aceita se estivesse bem vestida e bem calçada.
Assim foi ditado, também, os meus 20 anos. Chapinha nos cabelos toda manhã para ir a faculdade. Maquiagem para esconder as olheiras. Unhas pintadas e cutículas aparadas. Dieta 24 horas por dia. E as roupas? Sapatos? Mesmo vivendo com pouco durante a faculdade, sempre achava uma forma de comprar roupas novas a cada visita ao shopping. Cartão Marisa: check! Cartão C&A: check! Cartão Renner: check! Inúmeros carnês de lojas populares, típicas de centrão de cidade do interior.
Durante o mestrado, ganhando um pouquinho a mais, dá-lhe química nos cabelos para alisa-los, dá-lhe dietas, dá-lhe liquidação de lojas populares. Afinal, pra quê apenas 1 casaco se podemos comprar 7 casacos, e dividir tudo em 10 parcelas, para aproveitar aquele frio entorpecente do inverno em Rio Claro (mínima 30 graus) ?!
No doutorado mudei para uma cidade maior, amigos diferentes, ambiente diferente, pagamento maior, e como acreditava que o meu valor era ditado pela minha aparência: dá-lhe mega hair nos cabelos, dá-lhe mais dietas, dá-lhe Carmem Steffens, dá-lhe Mr. Office, dá-lhe Zara. Cartão de crédito sempre estourado. Sempre sem dinheiro. Viagem com os amigos? Não posso. Dinheiro para um bom vinho? Não tenho. Tickets para assistir show das minha bandas favoritas? Não posso comprar. Dinheiro para comer em um bom restaurante? Não tenho.
O que eu tinha? Muitas roupas, muitos calçados, cintura 36, cabelos longos e sedosos, maquiagem top pra rebocar meu rosto e, claro, não pode faltar, creme anti rugas. Pois onde já se viu a mulher com quase 30 anos não usando creme anti idade?!
Aos 27 anos me preparava para iniciar um pós doutorado nos Estados Unidos. Tinha tudo para estar em êxtase. Porém, a idéia de inciar uma nova fase em outro país estava me causando mais ansiedade do que felicidade. E se não gostarem de mim? Será que estou muito gorda? Será que a minha pele está manchada? Será que meu mega hair está hidratado? Como vou levar tantas roupa/sapato se o limite de peso da mala é 32 kilos? Será que as minhas roupas e calçados estão ultrapassados? Brega? Fora de moda?
Até que me dei conta: por que diabos estas perguntas estão brotando na minha cabeça neste momento? Por que estou tão focada na minha aparência, ao invés de estar focada nesta oportunidade estupenda de se viver em outro país, conhecer outra cultura, visitar novos lugares e trabalhar ao lado de feras da minha área?
Neste vortex de ansiedade e conflito, resolvi fazer o seguinte experimento: eu me mudaria para Austin levando uma mala com apenas 6 trocas de roupa e 2 pares de calçados. Eu passaria seis meses com “apenas” estas coisas. A minha mãe achou que eu estivesse ficando louca. E eu realmente estava. Louca e cansada de carregar tanta bagagem, tantas opções de vestimenta, e mesmo assim tanta insegurança sobre a opinião das pessoas ao meu respeito.
Nas primeiras semanas de trabalho eu ficava com medo das pessoas notarem que eu sempre usava as mesmas roupas. Na portaria do meu dormitório tinha medo até mesmo do porteiro notar. Sabe o que aconteceu? Ninguém notou. Em seis meses ninguém reparou as repetições das minha roupas ou dos sapatos. Ou se notaram, não verbalizaram.
Depois de 6 meses percebi que todas as minha neuras não mais faziam sentido. Percebi que as pessoas que gostaria que ficassem ao meu lado, não se baseariam apenas no que visto e no que calço. Se baseariam em suas afinidades para comigo.
Pela primeira vez experimentei a sensação de liberdade. Liberdade pois sei que carregava comigo somente o necessário, nada de excessos. Liberdade pois talvez eu não seja delimitada apenas pela minha aparência. Liberdade pois agora, finalmente, tinha dinheiro e limite no cartão para fazer tudo que realmente gosto.
Após estes seis meses, fui me libertando de coisas que achava essenciais: não preciso hidratar os cabelos 1 vez por mês; Não preciso remover cutículas toda semana; Não preciso usar salto alto no meu trabalho. Não preciso nem ao menos rebocar meu rosto para ir trabalhar. E por ai vai…
Quando voltei ao Brasil mantive a mesma ideologia: 6 trocas de roupa, 2 pares de calçado, apenas o básico. Somente o que me faz feliz. Este estilo de vida minimalista esta me trazendo muita alegria. Poderia dizer que esta me trazendo até mesmo paz. Hoje em dia posso utilizar meu dinheiro de forma mais proveitosa. Churrasco para amigos e familiares. Viagens com meu marido. Deliciosas garrafas de Cote du Rhone. Tudo que sempre quis fazer, porém estava muito ocupada gastando o meu dinheiro no shopping procurando pelo “look perfeito”.
Me desprender do consumismo excessivo foi uma das minhas melhores decisões. Então, coleguinhas que me perguntam, a resposta é: Sim! Só tenho estas roupas! E, Sim! Só tenho duas botinhas! Com muito orgulho! 😃
Desde sua publicação no dia 19 de abril , já gerou mais de 70000 curtidas e mais de 12000
comentários.
Este depoimento nos faz refletir sobre nosso hábito de consumo, entre outros questionamentos.
Consumimos mais do que realmente precisamos?
Poderíamos viver com menos?
Até que ponto nós estamos vivendo para satisfazer os outros e a sociedade ao invés de
satisfazer a nos mesmos?
As pessoas gostam de nós pelo que somos ou pelo que aparentamos ser?
Não quero dizer que nós todos deveríamos viver com apenas seis trocas de roupas e dois pares de sapatos, mas vale a pena parar para refletir nestas questões.
Qual é sua opinião sobre tudo isto?
Deixe sua opinião nos comentários.
Compartilhe.

Estimule a discussão.

Tags : comportamentoestilo de vida
Rogerio Chinen

O Autor Rogerio Chinen

médico formado na UNIFESP aficcionado por cinema e tecnologia interessado em questões filosóficas e sobre o conhecimento humano idealizador, criador e webmaster do site Espiral de Valor

2 Comentários

  1. Sensacional!

    Eu fiz isso também com todas as coisas da minha vida depois que li o livro: “A Mágica da Arrumação – Marie Kondo” e é incrível mesmo como as coisas mudam. Bem mais divertido e leve!

    Tem um documentário no Netflix sobre o tema também: “Minimalism”.

    Abraço,
    Henrique Reberte

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